Photo by rabby ahmed on Unsplash

Arquitectura absorta em gasolina
um idioma de letras desafinadas
por exemplo: uma crença, os trabalhos
semidivinos, a temperatura a que Hércules arde
a língua singra
um deus de gatas sangra, vil, rastejando até à sua cruz
vampiro manco voluntariamente parasita
da fé cachalote
arpoado por milhares de esferográficas
espartano na sua pose de lutador…

Photo by Josep Martins on Unsplash

quando vir a luz vou perguntar-lhe
o que é uma guilhotina emplumada
e no mesmo passo, sem necessidade
de recorrer a danças milagrosas
hei-de regressar a casa sem cabeça
apadrinhado pelo prefácio da morte

em seu lugar o coração canoro
diante do espelho um vulto decapitado
a dor de uma cabeça fantasma
o convite para ingressar no século
finalmente um homem completo

e porque me põem a luz ao rés deste quadro
se a intenção nunca foi ler a sua legenda

vou sabendo pouco a pouco
o travo que se acoita atrás da ficção
até rasurar em mim
a definição de amor.


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Photo by Irina Krutova on Unsplash

se pela mão começasse o voo

leões emperrados no mármore
indistintos declives decadentes
cio posto em obra
o poeta à espera
que a folha dê fruto
encontrado morto
ao rés do poema de amor

cá fora a montanha
no poema dinamitada
espartilhada entre versos

sou o homem que o amor crucificou
e o abutre faminto que me devorou

os nomes perdidos pela memória
percorriam, feitos animais, a pele áspera
arruinando com carícias o momento gélido.

com que frequência as asas recuam
com que frequência nascem as ideias
com que…

a geologia da vida tornada pedra
dar-vos-á tudo o que há
a saber sobre o Homem.


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Photo by Daniil Silantev on Unsplash

Se te amava era sem as palavras certas
entre nós não havia nada
que não estivesse arruinado
calados, os pensamentos revelavam-se
vândalos saqueando sem mestria o interior
a carcaça oca e sem nexo.

o animal posto vivo onde
não há depois nem antes
o gigante encaixotado
dobrado no verso
no olhar
o descontentamento
de uma geração

aos Domingos recorrem à memória
passeiam as ideias pelo que sobrou das mulheres
eis os homens sós e aflitos.


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Photo by Annie Spratt on Unsplash

És aquela cujo olhar roubou as minhas deixas
cego no pântano, actor de segunda no filme escoante
protege-me dos necrófagos apressados
com o perfume da paixão, exorciza as tendências de suicídio
freguesas habituais da minha mente arruinada
estava cego para o depois e iluminaste-me
és aquela que laripiou as minhas braçadas sem nexo
de molde a reorganizá-las em salvação
as tuas palavras doces formam catedrais no meu coração.

Avança, alimenta-te do meu olhar apaixonado.


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Photo by Filip Kominik on Unsplash

O sofrimento fez-nos idênticos às pedras
que abandonam o cume para esmagar
a população alienada do sopé
agendámos nas árvores arcaicas
cerimónias de esmagamento do ego
desembaraçámo-nos do nome e da pose.

Dentro da nossa própria cabeça condenada
conservávamos os cães que nos abocanham
atravessámos o nevoeiro de braços abertos
não fazíamos tenção de agarrar ninguém
todos os gestos eram sobras de danças
perdidas conducentes ao cadafalso.

Éramos irmãos porque sabíamos gemer
na mesma língua resistente, herdeiros
do primeiro grito, cantávamos sem público
divino a inutilidade da jornada
a nossa idade era lida por um cego
que punha os dedos a bailar sem música
em cima das rugas, as quais preludiavam o cadáver.


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Photo by Lucas Benjamin on Unsplash

Quando eu tinha outra idade
faziam-me sonhar sem obstáculos
o futuro ficava a um passo bem medido
de qualquer monumental palácio
acariciava o meu rosto vazio de rugas
e corria sem itinerário nem agenda
à beira da minha infância por desdobrar.

Agarrava o presente como se agarra uma laranja
os anos lentos — dentro deles demasiados dias
o inverno, raso de significados, tão-somente uma estação
o campo, apinhado de perigos, era joeirado
pela alegria nas horas de sol inofensivo

andávamos à volta do nosso nome
trabalhávamos um no outro
como num ritual de ressurreição
trazendo do mundo dos mortos
a verticalidade perdida
dos nossos antepassados
vergados pelos anos
de labuta estéril.

Chamavam-me pelo nome
e eu não acudia —
não era Ninguém.


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roberto gamito

A tensão da narrativa aumentou…e o narrador morreu electrocutado. @robertogamito

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